«uma resistência contra a invisibilidade» (Vanessa Ribeiro Rodrigues)

Apresentação das Revistas Curupira por Vanessa Ribeiro Rodrigues
no XXVI Bairro dos Livros «Ler é mestiço» (11 de outubro)

“Um dos mais espantosos entes fantásticos das matas brasileiras (…) O Curupira é representado por um anão, cabeleira rubra, pés ao inverso, calcanhares para a frente. Demônio das florestas, explicador dos rumores misteriosos, desaparecimento de caçadores, esquecimento de caminhos, pavores súbitos, inexplicáveis (…)”

Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do folclore brasileiro

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O Curupira é um pequeno duende de cabelos vermelhos e com os pés virados para trás que me é muito caro, especial. A primeira vez que o encontrei foi em 2009, quando viajei durante 4 meses pela Amazónia brasileira, num projeto pessoal e profissional jornalístico chamado SinaisdaGente, e que tinha o propósito de desvelar histórias das gentes da Amazónia, dessas que não vêm nos guias turísticas e se escondem nas margens dos rios. Quem mo apresentou foi Gilberto Navegante, caboclo, filho da Amazónia, a avó era filha de um português. Gilberto, o caboclo, espécie de guardião da floresta, levou-me pelas matas do das ilhas de Ananindeua, a norte de Belém do Pará, e mostrou-me formigas que espantam mosquitos, falou-me de surucucus, remédios da banana São Tomé contra picadas de cobra, de gatos maracajás, e claro do Curupira. Mas, Gilberto, mas quem é o Curupira?

– O curupira, diz os antigos, respondeu, é a mãe do mato. A gente entra na mata de noite e se não pedir licença ele judia da gente. A gente roda, roda e não sai do lugar, se perde.

Diz que é ele, o Curupira, quem protege a floresta e os animais. Para o enganar, se ele nos apanhar e quiser troçar da nossa boa sorte, tem de se amarrar alguns paus numa corda e atirar para trás das costas. Aí, desenvencilhamo-nos do demónio da floresta que, ao mesmo tempo, carrega o paradoxo de ser o protetor da floresta. Talvez seja um pouco isso que as Curupiras, assim mesmo no feminino, estas revistas, a 1 (publicada em Dezembro de 2012), a 2 (publicada em Novembro de 2013) e a 3, acabada de sair do prelo, ainda cheira a tinta, certamente, fazem com a literatura lusófona. Ao mesmo tempo, são uma espécie de subversão. Elas serviram, inicialmente (conforme me confidenciou o Paulo Brás, um dos editores), para publicar as comunicações apresentadas em colóquios do Grupo de Estudos Lusófonos, pois sabemos que os investigadores precisam cada vez mais de ensaios publicados com ISBN e DOI – os digital object identifiers na internet, para serem levados a sério. Então, se por um lado estas revistas se agarram ao propósito inicial de servir de plataforma de publicação, por outro tornaram-se em algo maior, que é a de proteger o património da produção literária e científica do Grupo de Estudos Lusófonos, judiando dos desafios e das dificuldades que pode ser publicar, anualmente, uma revista de produção científica sobre literatura lusófona coerente, madura e que acrescente valor ao universo das publicações.

E, a Curupira tem crescido desde o primeiro número entre criações literárias e produções científicas. Cresceu em páginas, de 43 páginas, saltou para 82, e agora o pulo para as 110. E neste caso a qualidade é mesmo uma textura necessária, para falar de sinais claros de alguma madureza, num cruzamento que me parece evidente. As 3 revistas, até ao momento, funcionam numa orgânica que não se esgota na lógica temática de, primeiro, censura e liberdade, depois crime e castigo, e agora o fogo: O que farei quando tudo arde? Pedindo emprestado o último verso do poema de Sá de Miranda. Aqui está ele:

Desarrezoado amor, dentro em meu peito,
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
i já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.

Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força; faz, desfaz,
sem respeito nenhum; e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.

Doutra parte, a Razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo; enfim vem o seu dia:

Então não tem lugar certo onde aguarde
Amor; trata traições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?

Na revista Curupira número 1, o tema censura e liberdade, a propósito do I Encontro do Grupo de Estudos Lusófonos analisou, por exemplo: “A reconstrução da memória de Agostinho Neto em Portugal” e o “O abjecto em Gonçalo M. Tavares.

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A segunda Curupira, explora – e apenas para vos abrir o apetite e não falar dos ingredientes todos- explora “O Crime em Estrela Polar de Vergílio Ferreira: percurso erótico-tanatológico entre a fixação e a dissolução da experiência aparicional.

(Destaco, por exemplo, esta parte na página 7, início.)

Percorre, ainda, a contundência da faca: Anatomia do corte: revisitando o castigo das facas do escritor brasileiro João Cabral de Melo Neto. Depois, “Ao assassino o seu castigo ou a Impossibilidade de sair impune no livro “Seminarista” do mestre do romance policial brasileiro Rubem Fonseca, Prémio camões em 2003 e homenageado nas Correntes d’Escritas na Póvoa de Varzim, em 2012. Nas páginas da Curupira nº2 encontramos, ainda, o cronista e escritor Rubem Braga, e um crítica ao esquecimento a que é relegado no Brasil, essencialmente. Almada Negreiros, o nosso artista multifacetado, tem o Nome de Guerra (1925) analisado sob a perspetiva: A destruição da mulher como parte integrante do processo iniciático do homem no conhecimento. É “o problema das identidades pessoal e coletiva”, cito.

Será sempre injusto, no entanto, não abordar todos os temas tratados e os autores que constroem este corpo literário, bem como a produção poética no final da revista (por isso será sempre mais justo folhearem as páginas das revistas, numa experiência onde se estende meio e mensagem, sendo e estando com ela nas mãos.

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A terceira incursão do Grupo de Estudos Lusófonos, conforme se lê no editorial não só inclui os textos que foram apresentados nos diversos eventos promovidos entre 2012 e 2013 (que explica, então, maior número de páginas em relação aos números anteriores), como também a divisão dos ensaios em 3 partes e uma secção de Opinião, com textos de jovens brasileiros sobre os protestos de 2013 em todo o Brasil. São, portanto, diversas as variações do FOGO, o tema desta Curupira, o tal demónio de cabelos vermelhos das matas brasileiros. Há, pore exemplo, a análise do fogo em Mário Sá-Carneiro e Antero de Quental, O fogo como símbolo de resistência feminina em Florbela Espanca; o fogo em Miguel Torga, O fogo de libertação e Apatia e as denúnicas sóciopolíticas no escritor brasileiro Graciliano Ramos, no moçambicano José Craveirinha e no angolano Agostinho Neto.

O fogo é então metáfora para falar e abordar a ideia de resistência, e claro que estes são apenas alguns exemplos do vasto índice que se alinha neste terceiro número da Curupira, que arranja espaço, ainda, para abordar o jornalista e escritor brasileiro Nelson rodrigues, esse safado reaccionário, e outros textos como “Um Credo no Amor com Asas de Ouro: Natália Correia e a reflexão sobre a homossexualidade na literatura portuguesa pós-1974”.

São textos de análise, de criação, reflexão, mas sobretudo alguma luz no meio da mata, para tentar enganar o Curupira, isto é, o silêncio e as salas vazias sobre o debate da literatura e o significado das obras. Pensarmos a criação do outro, os símbolos dos outros, abre-nos caminhos, leva-nos a outras possibilidades, a um espelho crítico do sentido das coisas, do sentido da construção de uma massa crítica. A literatura não é arte ao acaso, é um conjunto de construções, nem que elas sejam a vivência.

Como me confidenciou por e-mail Paulo Brás, que editou esta Curupira 3, junto com Andreia Oliveira, Carolina Marcello, Tânia Solano Ardito e Francisco Topa:

“Organizar colóquios científicos por alunos para alunos teve a sua fase de ouro (havia de facto colóquios por professores e investigadores, mas alunos de licenciatura e mestrado continuavam a deixar os seus trabalhos avaliados por professores na gaveta; houve outros projetos por alunos na FLUP, mas menos científicos, mais informais), mas no último ano já foi muito difícil e por uma ou várias razões as salas foram ficando cada vez mais vazias. O problema não foi nunca organizar programas nem conseguir comunicações, foi conseguir público que quisesse estar presente (pois nos momentos de debate pós-mesa ninguém pergunta coisas a alunos).”

Os alunos podem não ser doutores, ainda, mas têm a vantagem de estar isentos de vícios de pensamento, onde tudo é ainda uma possibilidade infinita para a descoberta, crime e castigo, censura e liberdade, e FOGO sobretudo FOGO. São eles uma espécie de Curupiras, de cabelos vermelhos e longos, demónios contraditórios, com os pés virados para trás. E estas Curupira, sendo uma subversão da ordem estabelecida são, essencialmente, uma resistência contra a invisibilidade.

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