Confissões de um biblioclasta #2 (29/03/2013) Bairro dos Livros no Grande Porto

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– Rui Lage –

 

Na crónica do mês passado prometi libercídios. Cumpro com o prometido. Quando tinha doze anos participei numa hecatombe: a incineração de livros no curral de certa casa de certa aldeia transmontana. O método: meio litro de gasolina e um fósforo. Os supliciados: algumas dezenas de cartilhas marxistas-leninistas de péssima qualidade intelectual, manuais de instruções para instituir ditaduras do proletariado e promover revoluções culturais à Mao. Tão maus que o próprio Marx os abjuraria. Exemplos: “Os kolkhozes: cooperativas agrícolas soviéticas” por M. Mymrikov, e o panfleto, não assinado, “A revolução cultural nos campos chineses”. Esclarecidos? Que fazer com a tralha? Impensável enviá-la para bibliotecas escolares (sobretudo havia que mantê-la longe da diáspora!). Queimá-la e transformá-la em fertilizante cinéreo surgiu como único desfecho possível. Foi assim que, por algumas horas, o meu espírito adolescente viu o mundo não pelos olhos de D. Quixote, como até à data sempre vira, mas pelos do cura e do barbeiro (até hoje sem entender porque pouparam às chamas o “Amadis” e o “Palmeirim de Inglaterra”). Não é digna de nota a chama libertada pela combustão das páginas. Mas à medida que as capas plastificadas, as colas, as tintas e as lombadas se incendiavam, labaredas mais exóticas aureolavam a fogueira de cores púrpuras e azuláceas. Entendamo-nos: não se tratou de uma hecatombe, mas de um exorcismo. Mal sucedido. Porque de alguma forma os espíritos dessa literatura marxista transmigraram e regressam agora para me assombrar. São “os espectros de Marx”, claro. Quanto aos seus envelopes corporais, ainda hoje, durante a noite, parece que lhes ouço os gritos alucinados a defumarem as nuvens, enquanto, em atarantado alheamento, uma turba de galináceos debicava cascas de melão fervidas pelo sol.

 

Para ouvir em Podcast: https://soundcloud.com/bairro-dos-livros/

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