A caçadora de histórias (15/02/2013) Bairro dos Livros no Grande Porto

vanessa rodrigues - A caçadora de histórias (15/02/2013) Bairro dos Livros no Grande Porto

A caçadora de histórias

– Vanessa Rodrigues –

Vocês já devem ter visto a Lis por aí. Não há viela, fins de rua, travessas e fechaduras portuenses que não conheça. Expedita, gosta de meter conversa, de observar. De ver as rugas das casas, a derme das gírias, de ouvir a cidade a palpitar. Às vezes acho que tem um kit especial de ouvir cidades. Medidores secretos, sensíveis à luz, aos sussurros, aos segredos. Vê, sente, ouve o que nunca conseguiríamos. Ouve-lhe os humores, sente-a respirar.

Quando a conheci falou-me da paixão por máquinas de escrever, essas que o senhor Álvaro Altino recupera e leva à feira da Praça Carlos Alberto. Este cirurgião do bisturi dos datilógrafos diz que não há máquina que perca a vida. Metáfora intemporal: dá um certo conforto saber que perdemos e ganhamos dias, mas que com ele as letras, património de línguas e dialetos, têm sempre um futuro para contar. Como a poesia. Esse lirismo que está nos homens, em nós. Os nós que nos agarram ao Amor pelas palavras.

Lis é verbo ser. Senta-se muito em cafés, escrevinhando futuros romances e poesia; folheando prosas. Gosta de Primaveras para ler nos Jardins do Palácio de Cristal. Ouve poemas em vinil. É uma balzaquiana de telemóvel da moda para fazer fotografias vintage, tomar notas e, também (leiam baixinho) registar os sons da cidade: as gaivotas, os sinos das igrejas a dobrar, o cauteleiro, os passos a caminhar na calçada portuguesa. E as dobradiças a ranger. É que a Lis não se contém: sobe escadas e elevadores de prédios antigos. Anatomia curiosa. Se um dia for apanhada…

Caçadora incorrigível, anda sempre pelo bairro à caça de histórias das gentes inquilinas, farejando literaturas invisíveis. A última vez que a vi fotografava do alto da Torre dos Clérigos os telhados da Vitória. Disse-me que estava com pressa, que já não tinha tempo, que o fim da prosa estava iminente. Garantiu que voltaria. Não sou eu que a encontro. É ela que me encontra a mim. Por isso, acho, vocês vão ver muitas vezes Lis por aí, alquimista de carateres.

Vanessa Rodrigues escreve mensalmente para a página do Bairro dos Livros no jornal Grande Porto. Ouça a crónica aqui.

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