Escrito congrulatório pelo bairro dos livros, por Helder Pacheco

 

“Eu gosto de bairros. Nasci num, chamado das Carmelitas, fora de Portas, na Vitória, e típico da classe média da Baixa portuense.

O Porto – ou não fosse bairrista – é cidade de bairros. O Ocidental e o Oriental, conforme a designação de Júlio Dinis. De Santa Catarina, Santo Ovídio e Cedofeita, conforme a divisão do Governo Liberal, durante o Cerco. E os outros bairros, com nomes dados pelos moradores, os construtores e a tradição. Da Fontinha e das Carvalheiras, do Leal e do Silva, das Eirinhas e de Vilar, de Maria Victorina e da Tapada, Herculano ou Ignez. E muitos outros onde vivia a classe operária.

Para ela construiu o “Comércio do Porto”, ainda nos inícios do séc. XX, os bairros da Granja de Lordelo, do Monte Pedral e das Antas. E a primeira República – chamando-lhes, vá lá saber-se porquê, «colónias» -, os de Manuel Laranjeira, Estêvão de Vasconcelos, Viterbo de Campos e Antero de Quental. Com o Estado Novo o conceito, logo oficialmente apropriado, alargou-se aos bairros de casinhas no estilo «Português Suave», encantadores mas insuficientes. E assim surgiram, periféricos, os bairros do Ameal, Azenha, Paranhos, Aldoar, Gomes da Costa, Fernão de Magalhães e um não mais acabar que se prolongou e ampliou com os bairros densos, uniformes, um tanto concentracionários e, sobretudo, guetizados para onde mais de um terço da população foi centrifugada. Vendo bem, se aos bairros operários, aos municipais e aos de rendas económicas juntarmos os de classe média e da própria classe média-alta e altíssima, como os do Campo Alegre, Prelada, Antas, Graham e muitos mais, concluímos, inequivocamente, ser o Porto uma cidade de bairros. Ou, dizendo melhor, o Porto é um bairro de si próprio. Na emanação de um espírito, modo de ser, maneira de viver.

Sendo assim, não custa perceber que possa alargar-se a definição, conceito ou até filosofia do bairro a outras perspectivas sobre a realidade urbana. Se o Porto teve as ruas dos bainheiros, fogueteiros, canastreiros, padeiros, etc.; se, neste momento, já existe, consagrado pela modernidade, um Bairro das Artes, por que razão não há-de haver um bairro dedicado aos livros, livreiros e livrarias? Bela ideia para tempos que se arriscam a ser demasiado cinzenteiros, tempos em que, para resistir às adversidades, angústias e dificuldades, se impõe a coragem da determinação e a oportunidade da inovação e da criatividade.

Que o bairro dos livros floresça e se expanda para o bem da cidade e da cultura – que, no final das contas, permanece como última fronteira que nos separa da mediocridade, da renúncia e do esquecimento.”

Porto, na Páscoa de 2012

Helder Pacheco

 

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