“Rotina”, Pedro Homem de Mello

 

“No entanto, aqui, no meio da cidade,

(Grande, tão grande!) aquela rua existe,

Anónima, talvez, como a verdade

E bela como tudo quanto é triste.

As casas não são muitas. O quintal

Ostenta o luxo, apenas, de uma grade.

Na esquina, as letras dizem sobre a cal:

Rua da Paz ou Rua da Saudade.

Certo dia, em Paris, pensei na rua

Onde, afinal, mais tarde, vim morar.

Foi como que lembrasse a própria Lua

Ou mesmo um barco, ao longe, no alto-mar…

E é desta solidão que necessito.

Estúpida, sem dúvida infeliz.

Silêncio imóvel, traduzindo o grito

Que me condena a amar o meu país!”

Pedro Homem de Mello

 

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